Taiza Tosatt Eleoterio elucida: apoiar uma amiga que tenta sair de um relacionamento abusivo fica mais claro com um exemplo prático

Ryo Matsunari
5 Min de leitura
Taiza Tosatt Eleoterio

A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, com atuação voltada ao apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade social, observa que muitas pessoas cometem os mesmos erros ao tentar ajudar uma amiga que vive um relacionamento abusivo, mesmo com toda a boa intenção do mundo.

Um exemplo composto e representativo, que retrata situações comuns e recorrentes sem descrever ninguém específico ou identificável, ajuda a ilustrar por que certas abordagens funcionam melhor do que outras, mesmo partindo do mesmo desejo genuíno de proteger alguém que se ama profundamente.

A primeira tentativa de ajudar, que não funcionou

Imagine uma amiga que, ao perceber os primeiros sinais de abuso, decide agir de forma rápida: liga repetidas vezes, manda mensagens insistentes, lista motivos concretos pelos quais a outra deveria terminar a relação imediatamente. A intenção é proteger, mas o efeito costuma ser o oposto: a pessoa que está vivendo a situação se sente pressionada e, muitas vezes, se afasta justamente de quem tentou ajudar primeiro.

Esse tipo de abordagem inicial reproduz, sem querer, uma dinâmica de controle bastante parecida com a que já existe dentro do relacionamento abusivo, mesmo vindo de um lugar de cuidado genuíno e bem-intencionado da parte de quem tenta ajudar.

Um ajuste de abordagem: escutar antes de aconselhar

Depois de perceber que a insistência constante não estava funcionando, a amiga muda de estratégia: para de dar conselhos diretos e passa a fazer perguntas abertas, como “Como você está se sentindo com tudo isso?”, deixando espaço para que a outra pessoa fale no próprio tempo e no próprio ritmo, sem sentir que está sendo interrogada.

Esse ajuste simples muda completamente a dinâmica de toda a conversa. Taiza Tosatt Eleoterio aponta que, em vez de se sentir julgada, a pessoa em situação de abuso começa a se sentir genuinamente ouvida, o que abre espaço para que ela mesma comece a nomear o que está vivendo, sem sentir que precisa se defender de mais uma cobrança externa.

O que mudou quando a pressão deu lugar à disponibilidade?

Com o tempo, a amiga passa a oferecer presença constante sem qualquer cobrança: disponibilidade para conversar quando fosse chamada, ajuda prática quando solicitada, e nenhum comentário de decepção quando a relação não terminava logo como ela mesma esperava que acontecesse.

Esse tipo de consistência, frisa Taiza Tosatt Eleoterio, que é sustentada por meses seguidos sem interrupção, é o que finalmente cria a base de confiança necessária para que, quando a decisão de sair amadurece de fato, a pessoa saiba exatamente a quem recorrer sem medo de julgamento.

O que essa história ensina sobre apoiar sem julgar?

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que esse exemplo, embora fictício e composto a partir de várias histórias, reflete um padrão observado com bastante frequência na prática: apoio eficaz raramente é aquele que empurra uma decisão, e sim aquele que sustenta presença mesmo quando a decisão demora a chegar, às vezes por muitos meses.

A diferença entre as duas abordagens não está na quantidade de cuidado ou de amor envolvido, mas sim na forma como esse cuidado é oferecido, com ou sem espaço para que a outra pessoa mantenha sua própria autonomia de decisão sobre a própria vida.

Cada história tem seu próprio ritmo

Taiza Tosatt Eleoterio reforça que não existe fórmula pronta que funcione exatamente da mesma forma para todo mundo, mas alguns princípios se repetem em praticamente todas as histórias parecidas: escuta antes de conselho, presença antes de pressão, paciência antes de resultado imediato.

Esses princípios, mais do que qualquer discurso pronto ou bem-intencionado, costumam ser o que realmente sustenta alguém durante um dos processos mais difíceis e solitários de atravessar sozinha.

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